quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A Paraíba que dorme nas ruas

O agravamento da crise nacional atingiu em cheio o Nordeste. A recessão, que provoca desemprego e fome, está levando muita gente a mendigar, a adotar as ruas como seu habitat. A Paraíba, especialmente João Pessoa, a capital, onde passei o Carnaval e constatei isso sem nenhum esforço, andando nas ruas como um turista comum, exibe cruelmente o retrato deste quadro.
Há dois anos, quando estive em João Pessoa, não vi tanta gente dormindo nas ruas, esmolando e abandonada quanto constatei agora. O Governo Federal não tem divulgado os números oficiais das desigualdades sócias no País. O último é de 2013, apontando que, após uma década de queda na miséria, o número de brasileiros em condição de extrema pobreza voltou a subir.
O País tinha 10,08 milhões de miseráveis em 2012 contra 10,45 milhões um ano depois, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O aumento é de 3,7%. O cálculo leva em conta o número de indivíduos extremamente pobres com base nas necessidades calóricas – aquelas com renda insuficiente para consumir uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias para suprir uma pessoa de forma adequada, com base em recomendações da FAO e da OMS.
A conta estima diferentes valores para 24 regiões do País. Pesquisei que o programa Bolsa Família, que integra as ações do 'Brasil Sem Miséria', identificou, entre junho de 2001 a junho de 2014, 31.507 famílias em situação de extrema pobreza na Paraíba, incluídas no Cadastro Único e no Bolsa Família.
O Governo faz uma grande propaganda sobre redução de miséria no Nordeste. No caso da Paraíba, informa que desde o lançamento do programa Brasil sem Miséria, 980.821 pessoas saíram da extrema pobreza no Estado. Na prática, a situação é bem diferente. Ontem, quarta-feira de cinzas, o que encontrei no principal cartão postal de João Pessoa, o calçadão que liga as praias de Tambaú e Cabo Branco, foi digno de um filme de terror.
Homens, mulheres e crianças dormindo no chão ao lado de barracas armadas na orla ou em marquises e até em prédios públicos. São moradores de rua? Em boa parte, sim. Mas, entrevistando alguns deles, constatei também gente que perdeu emprego, que não consegue fazer mais sequer um bico, para tirar uns trocados e enganar a fome. “Perdi meu emprego, era ajudante de pedreiro, a firma quebrou e eu vim parar aqui”, disse José Alves Pereira, 41 anos, encontrado dormindo por cima de um papelão, a sua cama.
Na medida em que avançava na direção de Tambaú a Cabo Branco encontrava mais gente dormindo ao relento sem chamar a menor atenção dos ricos e abastados que faziam ali, logo cedo, a sua caminhada. Certamente, perderam a sensibilidade e a indignação. Encontrei idosos, como “seu” Antônio do Saco, morador de rua, abandonado pela família, mas o cenário em geral foi uma mistura de mendigos e desempregado jogados nas ruas pela crise.
Recentemente, também na Paraíba, me chamou a atenção o caso de uma família carente da cidade de Alagoa Grande, no Sertão. O líder da família havia se matado por não aguentar as cobranças de dívidas, principalmente para compra de alimentos. A viúva Arlinda Bento Tomáz, 32 anos, mãe de sete filhos, ficou sozinha para cuidar dos filhos.
No desespero, viu dentre os pequenos uma solução para aliviar a fome da família: caçar ratos para comer. Os roedores abatidos eram cozidos ou fritos nas refeições do dia. A família mora na comunidade conhecida por Barreira, no sítio Tambor, em Alagoa Grande. Ali, não falta não falta apenas comida, mas de água, esgotamento sanitário, moradia digna e expectativa de vida. Segundo ela, a família conseguiu se cadastrar no Bolsa Família e percebe uma renda de R$ 240.
Segundo dados oficiais, a Paraíba tem 504 mil pessoas vivendo na miséria. Mesmo com o avanço na distribuição de renda pelos programas sociais, o Estado ainda tem a sexta pior renda per capita do Brasil (R$ 474,09). O percentual de pessoas em condição de pobreza ou de extrema pobreza em relação ao total de habitantes é de 43%. No caso apenas dos domicílios urbanos não agrícolas, onde nenhum dos residentes trabalha com agricultura, o percentual dos paraibanos extremamente pobres cai para aproximadamente 10%.






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