Senadores do PMDB relatam 'desconforto' com críticas de Renan a Temer

No G1
Diaiante das frequentes e quase diárias críticas do líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ao governo do presidente Michel Temer, parlamentares da legenda ouvidos pelo G1 relataram que o comportamento do senador tem causado "desconforto" entre os integrantes da bancada.
A série de críticas de Renan à condução do governo começou no mês passado. À época, Renan declarou, repetidas vezes, que a gestão Temer sofre influência do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso e condenado na Lava Jato. Com as afirmações do senador, coube ao próprio presidente dizer, em entrevista, que Cunha não influencia as decisões do Executivo.

Desde então, Renan Calheiros passou a dirigir críticas, com maior frequência, às diversas medidas adotadas pelo governo, principalmente na área econômica.

Os ataques de Renan

Renan disse nesse período, por exemplo, que o governo Temer agiu de forma "errática" ao enviar ao Congresso algumas reformas, como a da Previdência Social, sem ouvir a bancada peemedebista no Senado.
O parlamentar também chegou a avaliar que as mudanças nas regras da aposentadoria propostas pelo governo não serão aprovadas pelo Congresso porque são "exageradas" e "penalizam trabalhadores", principalmente das regiões Norte e Nordeste.
O ex-presidente do Congresso Nacional também foi responsável por comandar uma reunião da bancada do PMDB no Senado na qual foi redigida uma nota, assinada por 9 dos 22 parlamentares do partido, contra a sanção, por Temer, do projeto aprovado pela Câmara sobre a terceirização. Mesmo com o movimento de Renan, o presidente sancionou a proposta.

Durante toda a semana passada, Renan direcionou, diariamente, ainda mais críticas ao Palácio do Planalto. Ele declarou, entre outras coisas, que o governo Temer "não tem para onde ir" e, em entrevista, comparou a atual gestão à "seleção do Dunga".

No comando da seleção, Dunga acumulou maus resultados e foi trocado por Tite, que, em poucos jogos, classificou a equipe para a Copa do Mundo de Futebol, na Rússia, em 2018.

O que dizem os senadores do PMDB

Ao G1, um colega de bancada de Renan Calheiros afirmou, sob condição de anonimato, que a série de críticas do líder do PMDB ao presidente está provocando "constrangimento".
"Como senador, Renan tem todo direito de expressar seu descontentamento com o governo, mas deve ter cuidado ao se posicionar como líder, para evitar esses constrangimentos da bancada com o governo", disse esse parlamentar.
"Há um desconforto muito grande. Essa postura está criando focos de insatisfação na bancada. Mas também não ninguém com perfil para liderar o PMDB no Senado neste momento de turbulência", acrescentou.
Para outro senador do PMDB, que também pediu para não se identificar, Renan tem feito declarações "esquisitas" sobre Temer.
"Se o Renan, como líder, fizer uma orientação de votação contra o governo, eu não vou acompanhar. Ele é o líder, porém não sou obrigado a seguir sua orientação. Mas eu sou um conciliador, acho que temos que esquecer essas picuinhas, pensar no Brasil", disse. "Não sei se chega a ter uma divisão [na bancada], mas há esse estranhamento", completou.

Eleições de 2018

Para uma parte dos parlamentares peemedebistas ouvidos pelo G1, a série de críticas de Renan às medidas de Temer são motivadas pelas eleições do ano que vem, uma vez que o mandato do senador termina em 2018.
Esses parlamentares acrescentam, ainda, acreditar que Renan Calheiros tenta se "descolar" do presidente em função da baixa popularidade de Temer (segundo o Ibope, 10% consideram o governo "ótimo" ou "bom" e 55%, "ruim" ou "péssimo") e das reformas enviadas ao Congresso, como a da Previdência e a trabalhista.
"Renan está em uma situação complicada nas pesquisas em Alagoas. Com essas atitudes, ele espera uma reação popular", disse um senador peemedebista.
Na mesma linha, outro senador da legenda avaliou ao G1 que Renan precisa "dar uma virada em Alagoas, porque precisa se reeleger e ainda conquistar apoio para o filho".
Renan Filho, governador do estado e, assim como o pai, alvo da Lava Jato, também terminará o mandato no ano que vem.

Espaço no governo

Outro ponto levantado pelos senadores do PMDB sobre os possíveis motivos para a série de críticas de Renan ao Planalto é a "insatisfação geral" da bancada do partido com o fato de o presidente, na avaliação deles, ter optado por dar mais espaço no governo para outros aliados.
Segundou o G1 apurou, Renan e os demais senadores ficaram descontentes com a escolha do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) para o Ministério da Justiça. Os parlamentares reivindicavam que o escolhido fosse ligado ao PMDB do Senado.
"Qual é o ministro palaciano ligado ao Senado? Tem algum? O PMDB tem 30% do Senado. Na Câmara, o PMDB tem apenas 13% dos deputados. Qual é o ministro que representa o sentimento do PMDB no Senado?", questionou um parlamentar.

Resposta de Renan

Nas frequentes entrevistas que concede a jornalistas no dia a dia do Senado, Renan tem declarado, quando perguntado sobre o assunto, que a divergência dele com o governo não tem motivação eleitoral.
O senador também tem enfatizado nas declarações à imprensa que a origem da discordância com o Executivo é a "falta de diálogo" do governo Temer com a bancada do PMDB no Senado.
Renan Calheiros também tem negado que as críticas ao Planalto tenham relação com suposta perda de espaço no governo.

Passado de disputas

Temer e Renan têm um passado de disputas políticas, envolvendo, principalmente, cargos no governo e na cúpula do partido.
O presidente, por exemplo, que comandou o PMDB por 15 anos, disputou a recondução ao cargo no ano passado, mas, antes de se tornar candidato único, teve de costurar um acordo com parte dos senadores do partido ligados a Renan, que queriam assumir a cúpula da legenda, entre os quais Romero Jucá (RR) e Eunício Oliveira (CE).
Em 2016, com o andamento do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff no Congresso e com a possibilidade de Temer assumir definitivamente o Palácio do Planalto, Renan se aproximou do correligionário.
Logo após o impachment, por exemplo, Temer levou Renan para uma viagem à China e nomeou um aliado do senador, Marx Beltrão (PMDB-AL), ministro do Turismo.
Ainda como presidente do Senado, o parlamentar, por sua vez, ajudou, por exemplo, o Planalto a aprovar a emenda constitucional que impôs limite para o crescimento dos gastos públicos.

A reação de Temer

Até a semana passada, mesmo com as críticas diárias de Renan ao Planalto, a assessoria de Temer limitava-se a dizer que o presidente não comentaria as declarações do senador.
Na quinta (6), porém, o presidente decidiu falar pela primeira vez sobre o assunto, e disse que o parlamentar "vai e volta" e não cabe discutir com ele, porque Renan Calheiros não é presidente.

Segundo disse um interlocutor de Renan, contudo, "os senadores peemedebistas jantam com Temer, mas ligam para Renan para relatar o que foi dito no encontro".
Na avaliação de um integrante da alta cúpula do PMDB, o presidente está "bastante preocupado" com a postura e Renan e, por isso, tem agido com "cautela".
"Temer sabe que precisa do Senado para aprovar reformas, principalmente a da Previdência. E o Renan, ainda que fragilizado por investigações da Lava Jato, lidera a maior bancada do Senado e exerce forte influência sobre pelo menos dez senadores", disse.
No mesmo dia em que Temer cancelou o café da manhã com Renan, o senador alagoano se reuniu com colegas de partido, em um jantar oferecido pela senadora Kátia Abreu (PMDB-TO). Na ocasião, segundo relato de um presente, o senador "fritou" o presidente.
Aliado e sucessor de Renan no comando do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE) adotou como estratégia não comentar o assunto publicamente: "Não tenho que fazer juízo de valor sobre isso", afirmou.
De acordo com a colunista do G1 Andréia Sadi, Temer decidiu isolar Renan e passará a negociar cargos e projetos diretamente com os senadores do partido.
Além disso, o presidente desmarcou um café da manhã com ex-presidente do Congresso previsto para a semana passada.

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