terça-feira, 17 de setembro de 2019

Dodge deixa comando da PGR sob críticas


Blog do Matheus Leitão
Alçada ao posto de procuradora-geral da República após ter sido escolhida pelo então presidente Michel Temer, Raquel Dodge, cujo mandato se encerra hoje, tinha em 2017 o apoio quase irrestrito da categoria.
Mesmo como segunda da lista tríplice em 2017, com 34 votos a menos que o primeiro colocado, Dodge, cujo mandato se encerra nesta terça-feira (17), carregava uma aura de investigadora destemida entre procuradores das novas gerações.
Primeira mulher a ocupar a chefia do Ministério Público Federal (MPF), Raquel Dodge já ganhara respeito ao ser voluntária, ao fim de uma gravidez, da força-tarefa que investigou o esquadrão da morte comandado pelo ex-coronel da PM e ex-deputado federal Hildebrando Pascoal – caso que ficou conhecido como crime da motosserra na década de 90 no Acre.
Mas a notoriedade entre os colegas ganhou força mesmo quando Dodge foi nomeada pelo então procurador-geral Roberto Gurgel para comandar a força-tarefa da Caixa de Pandora, operação que revelou um esquema de corrupção e compra de apoio parlamentar no Distrito Federal conhecido como "mensalão do DEM”.
A Caixa de Pandora quebrou paradigmas e trouxe um simbolismo novo ao país e ao MPF por ser a primeira operação que prendeu um governador no exercício do mandato. José Roberto Arruda saiu do Palácio do Buriti direto para a prisão e Dodge, ao chefiar a equipe que depois atuaria na Lava Jato, passou a ser uma das principais lideranças do MPF.
Na campanha à lista tríplice de 2017 se dizia, até pela imagem rigorosa que ela tinha contra criminosos, que a Lava Jato seria ampliada em um eventual mandato de Dodge. Ainda nos primeiros dias da disputa ao cargo, a procuradora prometia não só manter a equipe que investigava crimes na Petrobras, mas trazer reforços.
Treze dias antes do fim de seu mandato, contudo, seis procuradores pediram desligamento da Lava Jato na Procuradoria-Geral da República - todos do grupo que investigava políticos com foro privilegiado. No pedido de demissão, os principais auxiliares de Dodge apontavam “grave incompatibilidade” com uma manifestação enviada por ela ao Supremo Tribunal Federal (STF).
De destemida investigadora a exposta por auxiliares por uma suposta leniência com poderosos, Dodge já estava sendo criticada há meses pelos procuradores que atuavam na área criminal, especialmente no combate à corrupção. Na opinião de alguns deles, a procuradora-geral não deu força às investigações, atrasando o andamento de vários casos no STF.
Em julho deste ano, o descontentamento já era tão grande que o procurador José Alfredo de Paula deixou a coordenação da Lava Jato junto à PGR. A saída do prestigiado investigador gerou uma crise interna. Quatro dias depois, Dodge continha uma ameaça de renúncia dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba durante reunião de três horas com o procurador Deltan Dallagnol.
Na avaliação de procuradores ouvidos pelo blog, o maior problema de Raquel foi que, apesar da inegável carreira combativa em várias áreas, ela abdicou da postura quando mais se precisou, à medida que cresciam as críticas ao MPF após as revelações do site Intercept sobre conversas atribuídas aos procuradores da Lava Jato.
A perda de prestígio entre investigadores que atuam no combate à corrupção e crimes do colarinho branco foi tão expressiva ao longo de dois anos que Dodge tentou ser reconduzida ao cargo pelo presidente Jair Bolsonaro por fora da lista tríplice. Se passasse pelo crivo da eleição interna da categoria teria uma “votação vergonhosa”, na avaliação de líderes do MPF.
Um dos últimos atos de Dodge como procuradora-geral da República nesta segunda-feira (16) deu o tom de sua imagem interna no órgão: a inauguração do novo prédio da Escola Superior do Ministério Público da União. A obra foi retomada no início da gestão de Dodge à frente da PGR após ficar paralisada por anos.
Voltada para treinamentos, cursos e formação continuada de membros e servidores do Ministério Público, o que por si só deveria ser motivo de celebração na categoria, a obra é criticada não só pelo gasto excessivo em um momento de austeridade necessária perante a crise fiscal enfrentada pelo país.
Internamente, o ato de inauguração acabou comparado com aqueles realizados por políticos em fim de mandato, que correm contra o tempo para entregar a obra “inacabada”. Antes admirada como uma investigadora severa contra organizações criminosas, Dodge testemunha um fim de mandato melancólico. O de ser comparada a políticos demagogos, o que todo procurador um dia sonha combater.

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