terça-feira, 21 de março de 2017

Lava Jato tem nova fase com base em delações


Jornal Nacional
A Polícia Federal deflagrou, hoje, mais uma fase da Operação Lava Jato, a primeira com base nas delações da Odebrecht. Os alvos foram pessoas ligadas a cinco senadores e um governador.
Os investigadores foram atrás de provas sobre corrupção e lavagem de dinheiro.
A operação foi batizada de Satélites porque os principais suspeitos estão na órbita de políticos, são pessoas ligadas a eles. Por isso, foi o ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, que autorizou as buscas a pedido da Procuradoria-Geral da República.
Policiais cumpriram 14 mandados: no Rio, em Salvador, em Maceió, no Recife e em Brasília.
Os alvos foram empresários ligados a pelo menos cinco senadores e um governador: Renan Calheiros, Eunício Oliveira e Valdir Raupp do PMDB; Humberto Costa, do PT; Fernando Bezerra Coelho, do PSB; e o governador de Alagoas, Renan Filho, do PMDB.
Em Brasília, foram feitas buscas na Confederal, empresa de transporte de valores, que já foi administrada pelo presidente do Senado, Eunício Oliveira, do PMDB do Ceará.
Segundo a assessoria, o senador saiu da administração da Confederal em 1998, mas ainda é acionista da empresa Remmo Participações, que é dona da Confederal.
O pedido da Procuradoria-Geral da República para fundamentar a operação permanece em sigilo, mas o Jornal Nacional apurou com várias fontes que as buscas relacionadas a Eunício são baseadas nas delações de Nelson Mello, ex-diretor da Hypermarcas, que relatou repasse de R$ 5 milhões para a campanha a governador do Ceará de Eunício em 2014 por meio de contratos fictícios.
O dinheiro teria sido repassado pelo sobrinho, ligado à Confederal, que foi alvo de buscas. A operação também se baseou na delação de um ex-diretor da Odebrecht que citou o sobrinho do senador como receptor de recursos.
Em uma rápida declaração, Eunício Oliveira negou irregularidades: “Quando fui candidato a governador do estado do Ceará, autorizei que fossem buscadas contribuições eleitorais dentro da lei. Portanto, eu estou muito tranquilo. Sei que os fatos serão apurados pelo Supremo Tribunal Federal. E o lugar adequado é lá e o inquérito é o processo natural”.
Em Pernambuco, um dos alvos foi Mário Barbosa Beltrão, ligado ao senador Humberto Costa, do PT. Policiais fizeram buscas na empresa de Beltrão, a Engeman.
O empresário já foi citado na delação do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras. Paulo Roberto Costa contou que Mário Beltrão pediu R$ 1 milhão desviados da Petrobras para a campanha de Humberto Costa ao Senado, em 2010.
O senador se defendeu: “Eu não tenho nenhum comprometimento com qualquer tipo de crime, de irregularidade e tenho certeza de que isso será reafirmado por essa ação que foi feita hoje”.
Empresários que têm relações com Renan Calheiros, o líder do PMDB no Senado, e o senador Valdir Raupp, do PMDB, também estão sendo investigados.
Em relação a Valdir Raupp, as buscas tiveram origem na delação de um ex-diretor da Odebrecht que relatou dinheiro para o senador por meio de um ex-diretor de Furnas, que foi alvo de buscas. No plenário, Raupp reclamou que não tinha informações.
“Eu não sei do que se trata, nenhum amigo meu foi abordado, nenhum parente foi abordado, nenhuma empresa que eu conheça foi abordada e ninguém me telefonou até o presente momento para dizer assim: ‘Olha, houve uma busca e apreensão aqui de documentos numa investigação relacionada ao senador Valdir Raupp’”.
Em relação a Renan, a procuradoria descreve pagamento de propina de R$ 500 mil da Odebrecht na obra do canal do sertão alagoano delatada por executivos da empresa. A delação da Odebrecht também fala em pagamentos para o filho de Renan, o atual governador de Alagoas, Renan Filho. O dinheiro, R$ 829 mil, seria para a campanha dele via diretório nacional do PMDB.
Nessa mesma obra os investigadores relatam pagamento de propina ao senador Fernando Bezerra Coelho, do PSB, no valor de R$ 1 milhão para a campanha de 2014 ao Senado. Segundo os investigadores, quando a propina foi pedida, em 2013, ele era ministro da Integração Nacional e responsável pela obra. Delatores disseram que o dinheiro saiu do departamento de propina da construtora.
Os investigadores pediram as buscas afirmando que não há comprovação de que o dinheiro foi de fato para a campanha.
Foi a sétima fase da Lava Jato com foco nos políticos e a primeira vez que diligências foram feitas com base em informações das delações de executivos e ex-executivos da Odebrecht.
Na tarde desta terça, o setor técnico do Supremo concluiu a digitalização dos 320 pedidos feitos pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a partir das revelações dos delatores.
O material que estava na sala-cofre, no terceiro do andar do Supremo, foi levado para o gabinete do relator da Lava Jato, Luiz Edson Fachin. Cabe a Fachin decidir se autoriza, por exemplo, a abertura de 83 inquéritos para investigar pessoas com foro privilegiado.
O ministro também tem que decidir se mantém ou não o conteúdo da delação em segredo, mas não há prazo para isso.
As respostas
A empresa Confederal afirmou que tem mais de 30 anos de atuação no mercado e que está colaborando com as investigações.
O advogado do empresário Mário Beltrão e dos filhos dele, Sofia e Marco Beltrão, disse que foi surpreendido pela operação desta terça; que o inquérito contra o empresário já tramita há mais de um ano no Supremo Tribunal Federal, e segundo o advogado, a Polícia Federal já havia se pronunciado pelo arquivamento. O advogado também falou em nome das empresas MSM Consultoria e Engeman.
O governador de Alagoas, Renan Filho, do PMDB, disse que está tranquilo e que todas as suas contas de campanha foram aprovadas pela Justiça Eleitoral.
A defesa do senador Fernando Bezerra Coelho, do PSB, disse que todos os atos do senador são lícitos e que ele não foi alvo de qualquer mandado de busca e apreensão nesta terça. O advogado disse ainda que Fernando Bezerra Coelho está à disposição da Justiça.
O senador Renan Calheiros, do PMDB, disse que é a favor da Lava Jato e considera que a operação deve ser realizada com responsabilidade. A assessoria do senador negou que qualquer pessoa ligada a ele tenha sido alvo da operação nesta terça.

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