O jogo continua complicado

Por José Paulo Kupfer
 O Globo
Os desdobramentos da permanência do presidente Michel Temer à frente do governo, depois da vitória de anteontem na Câmara dos Deputados, no que diz respeito à retomada da pauta econômica no Congresso, permanecem em zona de incerteza.
O tamanho e o tipo de apoio que Temer conseguiu amealhar para barrar o envio da denúncia de corrupção passiva ao STF indicam dificuldades em aprovar sem diluições não só reformas estruturais, Previdência à frente, mas até mesmo medidas voltadas ao ajuste fiscal mais imediato, caso das reonerações de folhas de pagamento, dos parcelamentos de dívidas tributárias e de eventuais novas elevações de impostos.
Continua, portanto, provável que o governo, mais cedo ou mais tarde, proponha uma revisão da meta fiscal deste ano – e também a do ano eleitoral de 2018.
A decisão tem forte significado político, traduzido por uma sensação de que a política econômica em execução nos últimos 15 meses, antagônica à adotada no governo de Dilma Rousseff, se revela quase tão ineficaz quanto a sua oposta. Até porque já correu tempo suficiente para que não seja mais possível culpar unicamente o fardo da desastrada “nova matriz econômica” pelo que agora não está dando certo.
Há curiosas coincidências entre fatos que complicaram a gestão econômica de Dilma e agora complicam a de Temer. Como nos idos da antecessora, por exemplo, o Congresso está transformando medidas de ajuste propostas pelo Executivo, voltadas a turbinar receitas extraordinárias, em pautas-bomba.
O adiamento da reoneração das folhas de pagamentos e a escandalosa desfiguração do mais recente projeto de parcelamento de dívidas tributárias são exemplos eloquentes.
Um dos seus principais efeitos colaterais adversos, exatamente como se via com Dilma, é tumultuar a administração pública, evidenciar as ineficiências das medidas e lançar dúvidas sobre a competência da equipe econômica do governo.
O jogo continua complicado, em que pese a blindagem da tropa de choque da base aliada de economistas, especializada em tentar confundir a trajetória hoje favorável dos ativos financeiros com o resfolegante comportamento da economia real.
Além disso, replicando o modo de operar de Dilma, é o próprio governo que, para se manter a qualquer custo, contradiz seu programa econômico. Episódio emblemático desse tipo de atitude pôde ser visto na véspera da votação na Câmara da denúncia que, se aprovada, afastaria o presidente do cargo e o levaria a julgamento no STF.
Ao mesmo tempo em que não se cansa de reafirmar a prioridade da aprovação da reforma da Previdência, Temer distribuiu benesses, incluindo alívio de R$ 10 bilhões em encargos previdenciários de produtores rurais, para garantir apoios na votação que arquivou a denúncia contra ele.
Algumas coisas, nessa mistura toda, vão aos poucos ficando mais claras. Uma delas está mostrando que o arcabouço teórico a partir da qual a política econômica do governo Temer foi desenhada, como em outros lugares em que foi aplicada, não está fazendo o motor funcionar como previsto – ele está rateando. A ideia embutida na teoria da “contração expansionista”, importada dos países afetados pelo crash de 2008, já estava ficando fora de uso por lá quando aqui chegou.
Supunha que, com reformas liberalizantes e ajuste fiscal à base de cortes nos gastos públicos, a confiança dos agentes econômicos seria recuperada, a partir daí haveria a retomada dos investimentos privados teria lugar, completando-se o circuito virtuoso com o relançamento da economia e a volta do emprego.
Porém, num ambiente de profunda e prolongada recessão, com elevadíssima capacidade ociosa e, mais do que isso, endividamento estratosférico de famílias e empresas, a receita vem falhando. Quase um ano e meio depois, ainda mais sem o impulso do investimento público, em fortíssima retração, as inversões privadas mal chegam a repor um mínimo da depreciação das máquinas e equipamentos quase parados.


O resultado é que, desde o último trimestre do ano passado, a esperança de retomada da atividade, no vaivém dos números mensais, tem sido anunciada e adiada a cada período para o próximo.

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