domingo, 14 de maio de 2017

Deputado e líder sindical oscila: é governo e oposição


Ranier Bragon - Folha de S.Paulo
Presidente do Solidariedade e da Força Sindical, o deputado federal Paulo Pereira da Silva (SP) afirma que sua atual relação com Michel Temer se assemelha à anedota do "papagaio do português".
Nela, uma coruja pintada de verde é vendida como papagaio, o que leva o comprador enganado a comentar tempos depois: "Falando o bicho ainda não está, mas presta uma atenção..."
"Comigo e o Temer é a mesma coisa. Vou no palácio, falo, falo, falo, e ele presta uma atenção... Mas na hora de resolver, nada", diz o deputado, protagonista do movimento que levou ao impeachment de Dilma Rousseff.
Aos 61 anos, Paulinho da Força, como é mais conhecido, já foi filiado a PT, PTB e PDT –chegou a ser muito próximo a Leonel Brizola (1922-2004) nos últimos anos de vida do ex-governador–, sigla que ficou até montar o Solidariedade, em 2013.
Paranaense, se mudou para São Paulo nos anos 1970 e acabou formando-se politicamente no Sindicato dos Metalúrgicos, onde ocupou vários cargos de direção ao lado de Luiz Antonio Medeiros.
E de onde, em 1991, ajudaria a montar a Força Sindical –criada com o apoio do então presidente Fernando Collor de Mello em contraponto à oposicionista CUT (Central Única dos Trabalhadores).
É chamado de pelego por adversários. "Eu negocio, trato a greve como último recurso, faço outro tipo de sindicalismo, se isso é ser pelego, então sou isso que falam."
Paulinho é réu no Supremo Tribunal Federal sob acusação de desviar dinheiro do BNDES, além de ser investigado sob suspeita de receber propina da Odebrecht. Ele nega irregularidades e diz esperar que tudo seja arquivado.
Candidato a vice-presidente na chapa de Ciro Gomes (então no PPS) em 2002 e deputado federal desde 2007, Paulinho transitou ora como aliado ora como pedra no sapato de todos os governos, mas sua atuação de maior relevo se deu na queda de Dilma.
Tendo, com idas e vindas, mantido relativa boa relação com Lula, Paulinho acabou apoiando Dilma em 2010. Após a posse da petista, porém, a relação se esgarçou.
A resistência de Dilma em atender a reivindicação de reajuste maior para os aposentados e outros pleitos foram, na versão do deputado, o histórico que culminou um uma reunião em 2013 quando a presidente teria lhe dito para encerrar um assunto afirmando: "Você foi derrotado".
"Dei um tapinha no braço dela e disse: 'Vamos ver que vai ser derrotado no final'. Foi a última vez que falei com ela", afirma Paulinho.
No ano seguinte, tomaria corpo na Câmara, com sua participação, o "centrão", grupo de partidos governistas liderado por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e que se tornou o embrião do movimento da cassação de Dilma.
Paulinho está vinculado à maioria dos protestos que marcaram esse período. Bancou com dinheiro da Força (R$ 12 mil) o primeiro boneco gigante inflável de Lula vestido de presidiário. Também esteve por trás dos "petrodólares" jogados das galerias sobre deputados na Câmara, dos roedores soltos durante sessão da CPI da Petrobras e do slogan pró-impeachment "tchau, querida".
DE VOLTA À CORTE
Com a ascensão de Temer, Paulinho voltou a ter acesso direto ao Palácio do Planalto. Embora não se declare opositor, as reformas levaram a fissura. A da Previdência e, principalmente, a trabalhista, que traz em um dos seus pontos a derrubada da obrigatoriedade do imposto sindical.
Em reunião com o presidente confirmada por outros participantes, ele recebeu a promessa de que os líderes governistas iriam se empenhar para manter a cobrança por mais seis anos. "Mas na hora do voto todo mundo sumiu", diz. Seu grupo afirma que com isso Temer dá força à CUT.
Por causa das reformas, Paulinho se aliou à central adversária na greve do último dia 28 e programa uma "marcha" de trabalhadores a Brasília no dia 24 para pressionar contra as reformas.
O Solidariedade tem apenas 14 deputados, mas Paulinho tem aliados em outras legendas. Governistas falam que ele controlaria cerca de 20 votos. Pouco em um cenário de 513 cadeiras. Mas que pode ser decisivo na votação da Previdência. O Planalto sofre para conseguir o mínimo de 308 votos (60%) para aprovar a medida.
Temer e o Planalto tem procurado contornar o mal-estar com o aliado, tendo prometido a edição, após a aprovação das reformas, de uma medida provisória para compensar o fim da obrigatoriedade do imposto sindical.
Paulinho diz que quer a MP antes, afirmando não confiar mais em acordos de gabinete. "Prometer a MP ele [Temer] prometeu, mas a palavra dele está meio em baixa."

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